Como filha ilegítima da residência nobre, a coisa mais ousada que Jiang Hua fizera na vida foi, quando Xie Yuwan, amigo de seu irmão, caiu numa armadilha, oferecer-se para compartilhar sua cama. Xie Yuwan era o chanceler mais jovem da corte, brilhante e impecável, com posição elevada e grande poder. Se não fosse por essa coincidência absurda, ele teria sido, para Jiang Hua, alguém que ela jamais poderia tocar em toda a vida. Após aquele episódio ridículo, sob os olhares de todos, Jiang Hua conseguiu o que queria e tornou-se a esposa do chanceler. Jiang Hua sabia que devia algo a Xie Yuwan, por isso cedia a ele em tudo. Ela era a esposa mais virtuosa e recatada de Xie Yuwan, e também sua amante mais fiel e inabalável. Ela sempre pensara que, nesses dez anos, mesmo que Xie Yuwan não a amasse, ao menos deveria respeitá-la e prezá-la. Até que...
No primeiro ano de Kongshuang, no sétimo dia do terceiro mês.
Jiang Hua estava de joelhos diante do salão funerário simples, olhando para a humilde tabuleta espiritual sobre a mesa de madeira, os olhos vermelhos, o corpo abatido.
Sete dias antes, a tia-ama deixara algumas palavras e se enforcara no quarto.
O Ano-Novo acabara de passar; um ato tão funesto quanto o suicídio era evitado por todos. Ela implorara durante três dias inteiros, oferecendo o pouco dinheiro que restara do tratamento da tia-ama e, depois de súplicas e mais súplicas, conseguira ao menos um caixão e uma tabuleta espiritual para aquele quarto.
Mesmo após sete dias, Jiang Hua ainda não entendia por que a tia-ama escolhera a morte.
Ela preparava os assuntos fúnebres quase sem sentir nada, mas, nos momentos de pausa, a cena daquele dia reaparecia de súbito diante de seus olhos.
Naquele dia o sol brilhava bem, e ela acabara de receber a promessa da avó. Ia contar à tia-ama a boa notícia do noivado que estava por vir. Quis surpreendê-la, por isso não bateu à porta.
Mas, quando empurrou a porta, o que viu foi um corpo esguio e magro. A tia-ama pendia de uma faixa branca, o corpo caído em linha reta. Quando, trêmula, Jiang Hua ergueu o olhar ao longo daquela figura, encontrou o rosto pálido, franzino e sem alento da tia-ama.
Sobre a mesa ao lado havia um pequeno bilhete deixado para ela.
No papel amarelecido, os caracteres eram delicados: “A neve de Chang'an é fria demais; no inverno sempre corta a pele. Bolinha de Neve, leva a mãe contigo para o sul